Nenhum dia é suficiente para conter toda a luz



Quando se passa em frações de segundo, de um estado sem consciência, vindo de um outro em que o cérebro aproveitou o descanso físico para se reorganizar e nos confundiu com aqueles sonhos que parecem saídos de um filme de ficção científica, e nesse breve momento de alteração de estado, nos esforçamos por abrir os olhos à realidade, num natural exercício diário de regresso ao real...

...E o mesmo calor ausente ali está, a mesma luz de um sorriso que escasseia ali está, a mesma respiração amada e o odor dessa ausente mas sempre constante presença imaterial, ali está, num desejo para que o tempo voe e se regresse à doçura de uma realidade nem sempre possível.

Abro a janela para que entre a luz e não me dê alguma hipótese de regressar a um sono que me prende no que não quero, mas que me liberte ao pensamento que entender. E a este sentir por todos momentos em que esses olhos únicos me roubaram todas as palavras que consegui aprender. E, por opção fecho de novo os olhos, já com o quarto iluminado e sinto o que não é possível fisicamente sentir.

A paisagem é agora de curvas suaves e doces que se tem de percorrer, é de aroma inebriante e identificável sempre da mesma forma, associada a essas formas curvas que também emanam um calor que não é apenas físico, mas bem mais de paixão. De olhos fechados estendo o braço e quase sem a total proximidade tento imaginar-me a percorrer o mais encantador dos vales, e a mais maravilhosa saliência. Aproximo-me mais e aspiro o odor do fim de uma noite de sono pesado e encho-me todo desse perfume só assim existente, deixando-o entrar-me fundo e sorvendo a poção mágica que sempre me deixou ébrio e a pairar. Muito, muito ao de leve vou tentando sentir nos dedos a suavidade dessa tua paisagem corporal, abrindo um pouco os olhos como para conseguir ver o que ali ao lado não está, mas vejo mesmo a limpa e alva paisagem que ergue do chão e me deixa em falsa suspensão, pairando.

Há uma luz ímpar que emana de tal paisagem, branca mas doce e não ofuscante, que me chama constantemente para gáudio dos meus sentidos. Há um desejo que se lhe associa e que nem sempre se pode satisfazer e guardar novas memórias de tão bela panorâmica.

Há um som que subitamente surge dos lábios mais perfeitos que alguma vez se pode ter. O som de um novo dia mais que traz consigo promessas chegadas com a paragem do tempo como se quer.

O sorriso, mesmo numa ausência é imprescindível e inquietante. É pertubador e quer-se alimentar essa perturbação e essa insegurança do que se sente, não por incerteza, mas por desejo de novidade a cada momento que o teu corpo permite e impele.

Então os olhos se abrem para um dia mais, em que a luz que a tua pessoa dá, faz dispersar qualquer cinzento dia, qualquer pensamento carregado, qualquer tentativa de tempestade humana ou natural.

E Bom dia é o que se diz de sorriso espraiado e com todo o impulso que o sono ainda em fuga nos permite. Bom dia ao mais belo sorriso e ao mais doce olhar de sempre!

Era Bom dia e deixar-se, de novo levar, pelo peso do sono para mais tarde poder dizer uma outra vez Bom dia e com isso enganar o tempo, com essa sensação de duplicar um dia, num único amanhecer e dois despertares.

Porque não há despertar suficiente para essa bela luz. Nem dia que abarque uma tal matinal doçura.

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